
Estes gráficos mostram um fenómeno clássico de “voto útil” e “voto de proximidade”, onde uma parte significativa do eleitorado vota na CDU (PCP/PEV) nas eleições autárquicas, mas transfere o seu voto para o Partido Socialista (PS) nas eleições legislativas.
E a tabela com a diferença de votos deixa esta dinâmica muito clara: a coligação PCP/PEV perde sistematicamente milhares de votos quando se passa de um ciclo autárquico para um legislativo (valores negativos), enquanto o PS ganha uma quantidade de votos bastante aproximada (valores positivos).

Análise do Comportamento Diferencial
Para compreender este eleitorado flutuante, é necessário analisar as motivações que dividem o voto local do voto nacional:
- O Voto de Proximidade (Autárquicas – PCP/PEV): O eleitorado reconhece e valoriza o trabalho de gestão local, o perfil dos candidatos e a ligação dos eleitos da CDU às populações e freguesias. Muitas pessoas votam no PCP ao nível do concelho por considerarem os seus autarcas bons gestores ou defensores dos interesses locais, independentemente da ideologia nacional.
- O Voto Útil Nacional (Legislativas – PS): Quando o mesmo eleitor é chamado a escolher o Governo do país nas legislativas, a prioridade muda. Para evitar que a direita (PSD/CDS) ganhe as eleições e governe, ou simplesmente para garantir um governo estável de esquerda, este eleitorado transfere o voto para o PS. Existe a perceção de que o voto no PCP/PEV para o Parlamento poderá não ter consequência direta na formação de um executivo.
Exemplo Prático
Ao olhar para os dados mais recentes de 2025 / 2025 (onde ambos os atos eleitorais coincidiram no mesmo ano civil):
| Partido | Votos nas Autárquicas | Votos nas Legislativas | Diferença |
| PCP/PEV | 15.899 | 6.594 | -9.305 |
| PS | 22.443 | 25.800 | +3.357 |
Nas autárquicas de 2025, o PCP/PEV obteve quase 16 mil votos. No entanto, nas legislativas do mesmo ano, mais de metade desses eleitores (9.305) deixaram de votar na CDU. Uma fatia importante terá migrado diretamente para o PS (que cresceu 3.357 votos no plano nacional), enquanto os restantes votos em falta ter-se-ão distribuído pela abstenção ou por outras forças políticas, nomeadamente à esquerda.
Este padrão repete-se de forma idêntica em todos os ciclos analisados na tabela (como em 2005/2005 e 2021/2022), confirmando a existência de um bloco sólido de eleitores que dividia de forma pragmática o seu voto entre o poder local (CDU) e o poder central (PS).
A análise sociopolítica atrás referida, representa o comportamento dos eleitores no concelho de Almada, historicamente conhecida como uma “cidade vermelha” e um bastião da CDU desde as primeiras eleições locais em 1976, mas que sofreu uma profunda mutação política com a vitória de Inês de Medeiros pelo PS em 2017.
A Queda da CDU e a Consolidação do PS
A transição iniciada na década passada alterou o significado do “voto útil” com o ponto de viragem em 2017 (em linha com a tendência verificada a partir do ciclo de 2013/2015), quando o PS conseguiu capitalizar o descontentamento e o desgaste local da CDU, vencendo a câmara por uma margem mínima.
Ao perder a liderança autárquica, a CDU perdeu também a sua maior ferramenta de retenção de voto: o estatuto de gestora natural do município. Sem o forte argumento do “voto de proximidade” na liderança da autarquia, o eleitorado de esquerda em Almada tendeu a concentrar-se ainda mais no PS tanto nas autárquicas como nas legislativas, empurrando a CDU para mínimos históricos (como se observa nos escassos 6.594 votos legislativos e 15.899 autárquicos em 2025).
O Fenómeno Chega em Almada: Um Novo Tipo de Volatilidade
A entrada e a explosão do Chega em Almada trazem uma dinâmica totalmente nova ao eleitorado flutuante. Ao contrário do movimento clássico entre o PCP e o PS, o Chega apresenta um comportamento assimétrico muito particular:
Entre 2021 e 2025, o partido quadruplicou a sua expressão nas autárquicas (de cerca de 4 mil para mais de 14 mil votos) e triplicou nas legislativas (de aproximadamente 6,6 mil para 21 mil votos).
Num concelho com o perfil sociodemográfico de Almada (uma forte componente urbana, operária e de periferia), este crescimento não se explica apenas por votos vindos da direita tradicional (PSD/CDS) que o Chega terá absorvido, mas inclui também:
- Antigos eleitores de protesto da CDU que se sentiram desalinhados com o sistema;
- Abstencionistas que encontraram no partido um veículo de descontentamento.
Inversão do Padrão do Voto Útil

Se analisar os dados acima, o Chega faz o percurso inverso ao da CDU quando muda o tipo de eleição:
- Nas Autárquicas: O eleitor tende a ser mais cauteloso ou prefere soluções mais moderadas/conhecidas para gerir o município, o que fez com que o Chega ficasse pelos 14.067 votos em outubro de 2025. Mesmo assim, este resultado permitiu uma entrada inédita e desestabilizadora no executivo camarário com 2 vereadores.
- Nas Legislativas: O voto ganha um caráter puramente ideológico e de protesto nacional. O eleitorado sente-se muito mais livre para “votar com o estômago” contra o sistema político central. Isso faz com que o Chega dispare para os 21.153 votos no plano nacional, atraindo pessoas que a nível local votaram no PSD ou até preferiram a continuidade do PS na Câmara.
Resumo do Cenário Atual
Almada passou de um ecossistema político binário e previsível (onde se escolhia a CDU para a proximidade da terra e o PS para governar o país) para um cenário tripartido e altamente volátil.
O eleitorado flutuante já não se move apenas num eixo linear de esquerda. Agora, divide-se entre o pragmatismo de manter o PS na gestão camarária para evitar disrupções locais e a expressão de uma profunda fadiga política que alimenta o crescimento do Chega sempre que há urnas nacionais.