Da “Vila Itália” à Ruína Absoluta: A Agonia da Quinta dos Travassos

A Quinta da Lousa, em Loures, encontra-se num avançado estado de degradação devido a décadas de negligência institucional e inação por parte das sucessivas entidades gestoras públicas. O complexo histórico, que inclui prédios residenciais, agrícolas e três nascentes de águas mineromedicinais com caudal significativo, permanece votado ao abandono e sem qualquer aproveitamento dos seus recursos naturais. Um caso evidente de negligência patrimonial pública, com edifícios colapsados e desperdício de recursos numa propriedade de mais de 11 mil metros quadrados totalmente ao abandono. A propriedade está no perímetro da Reserva Agrícola Nacional (RAN).

A Quinta dos Travassos, ou Vila Itália, também conhecida por Quinta da Lousa, em virtude de se localizar na freguesia da Lousa, concelho de Loures, foi adquirida pela Junta de Província da Estremadura (JPE) ao médico Dr. Mário Damas Mora em 1948.

Em 1955, a JPE celebrou um acordo com o Instituto de Assistência aos Inválidos (IAI) para aí instalar um Centro de Trabalho para Rapazes Cegos. Em 1959, a JPE passou a Junta Distrital de Lisboa (JDL), mantendo-se aquele acordo.

Em 1979, a JDL passou a designar-se Assembleia Distrital de Lisboa (ADL). Entretanto o IAI passou para o Centro Regional de Segurança Social que acabou por abandonar as instalações deixando-as degradar-se, pelo que em 1990 a ADL reassumiu a posse plena da propriedade.

Em 1991, este património passou para a gestão do Governo Civil de Lisboa (GCL) que durante 20 anos nada fez pela sua recuperação mantendo-se a propriedade, no entanto, em nome da Assembleia Distrital de Lisboa (assim era em 2015 aquando da passagem da universalidade jurídica da ADL para o Estado na sequência da extinção dos serviços desta entidade, mas presume-se que tudo continue inalterado até ao presente).

Apesar de constituir uma só unidade, toda murada, é composta por oito prédios urbanos, cujas construções estão em avançado estado de degradação ou mesmo completamente em ruínas, num total de 1.257m2 de área coberta com 3.497m2 de logradouro e 11.480m2 de terreno agrícola.

Trata-se de um edifício em alvenaria, com r/c e 1.º andar e uma casa anexa também em alvenaria. Tem, ainda: uma casa da porteira, casa para administração, casa para refeitório, casa para culto religioso, casa de r/c e 1.º andar em parte e no restante apenas loja e terraço, casa antiga de cave, r/c, 1.º andar e águas-furtadas.

Possui um mirante com dois pisos e, em anexo, um edifício para lavandaria e quartos para o pessoal.

Na parte rústica: terra de semeadura com árvores de fruto e vinha, mais duas edificações, uma com aproximadamente 70m2 destinada a quartos do pessoal e outra com área de cerca de 384m2 destinada a pavilhão para doentes.

De um relatório elaborado em 1991 podia ler-se:

«No recinto da propriedade existem 3 nascentes de águas que tinham as seguintes caraterísticas à data de 1948: Fonte 1 – águas bicarbonatadas cálcicas e cloretadas de reação alcalina (PH = 7,5). Caudal – 38.000 1/dia. Fonte 2 – águas fracamente bicarbonatadas cálcicas, sulfatadas e levemente férreas, de reação ligeiramente ácida (PH = 6,74). Caudal 80.000 1/dia. Fonte 3 – águas sulfatadas e cloretadas cálcicas, um pouco férreas, consideradas puras. Caudal 32.000 1/dia.

Não se dispõem de elementos atualizados.

As águas consideradas mineromedicinais foram manifestadas na Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos e registadas no Livro 30, a folhas 78, de 02-11-1944 e registadas na Câmara Municipal de Loures.

Não existe qualquer exploração das referidas águas que têm, atualmente, uma escorrência natural pelo terreno.»

Autor: Ermelinda Toscano

Fundadora do projeto Memória Descritiva

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