A Explosão da Direita e o Declínio da Esquerda, em Almada

 

A reconfiguração política em Almada reflete um crescimento sem precedentes da direita e a perda de espaço da esquerda tradicional. A análise histórica dos votos para a Câmara Municipal entre 2001 e 2025 expõe a transição de um bastião histórico da esquerda para um cenário de forte fragmentação e reequilíbrio de forças.

 

Análise Histórica dos Votos (2001-2025)

Os dados revelam três grandes movimentos no eleitorado almadense ao longo do século XXI:

Eleições

Esquerda

(BE + CDU)

Centro

(PS + PSD)

Direita

(CDS, CH + IL)

Tendência Dominante

2001

29 418

29 586

2 865

Equilíbrio absoluto Centro/Esquerda

2005

33 584

29 396

0

Pico histórico da Esquerda

2009

33 076

27 961

3 782

Hegemonia da Esquerda mantida

2013

26 716

24 026

1 502

Queda geral na participação total

2017

26 906

30 272

1 694

Viragem: o Centro assume a liderança

2021

25 840

35 777

3 980

Consolidação do Centro

2025

19 434

37 379

17 210

Explosão da Direita e colapso da Esquerda

(Fonte: Atlas do Poder Local – Arquivo de Eleições Autárquicas.)

 

Principais Conclusões do Desempenho Eleitoral

O Colapso da Esquerda: Após atingir o seu auge em 2005 com mais de 33 mil votos, o bloco composto pelo Bloco de Esquerda (BE) e pela Coligação Democrática Unitária (CDU) registou uma quebra contínua. O declínio acentuou-se drasticamente em 2025, fixando-se no mínimo histórico de 19 434 votos.

A Hegemonia Resiliente do Centro: O bloco central (PS + PSD) tem conseguido segurar a maior fatia do eleitorado desde a histórica viragem de 2017. Em 2025, estabeleceu o seu recorde absoluto de votação no concelho com 37 379 votos, mantendo-se como a força governativa ou dominante na região à custa da subida da votação no PSD.

A Explosão Histórica da Direita: O crescimento mais disruptivo pertence à direita (CDS, Chega e Iniciativa Liberal). Praticamente residual ou nulo durante as primeiras décadas (flutuando entre os 0 e os 4 mil votos ainda antes de haver Chega e Iniciativa Liberal), este bloco disparou de 3 980 votos em 2021 para uns impressionantes 17 210 votos em 2025.

Este novo panorama político em Almada demonstra que o eleitorado local acompanhou as tendências nacionais de redistribuição partidária, transformando o concelho num território altamente competitivo e ideologicamente tripartido.

O Partido Socialista no poder em Almada desde 2017, como nunca atingiu a maioria absoluta, tem governado num equilíbrio frágil, dependendo de alianças variáveis à direita e à esquerda. A análise da distribuição dos 11 vereadores da Câmara Municipal de Almada revela como a governação socialista se adaptou à fragmentação do eleitorado, recorrendo a blocos políticos distintos para garantir a estabilidade executiva.

 

A Distribuição de Vereadores (2017-2025)

A evolução dos mandatos nas últimas três eleições demonstra a necessidade constante de pactos:

  • 2017: PS (4) | CDU (4) | PSD (2) | BE (1).
  • 2021: PS (5) | CDU (4) | PSD (2) | BE (1).
  • 2025: PS (4) | CDU (3) | PSD (2) | CH (2).

 

A Geometria Variável da Governação Socialista

O Ciclo Pragmático com o PSD (2017 e 2021): Ao conquistar a liderança em 2017 com 4 vereadores (empatado com a CDU), o PS de Inês de Medeiros aliou-se ao PSD (2 vereadores) para somar 6 mandatos e assegurar a maioria. Em 2021, apesar de subir para 5 vereadores, o PS manteve o acordo de governação com os 2 eleitos do PSD para governar com tranquilidade (7 em 11 mandatos).

A Solução à Esquerda em 2025: As eleições de 2025 alteraram drasticamente as contas com a entrada do Chega (CH) com 2 vereadores e a perda do mandato do Bloco de Esquerda (BE). O PS recuou para os 4 vereadores e, perante o crescimento das forças de direita, optou por uma inversão estratégica de alianças, assinando um acordo pós-eleitoral com a CDU (3 vereadores) para atingir os 7 mandatos necessários à governação.

A Resiliência do Bloco Central face à Pressão: O PSD manteve-se estagnado com 2 vereadores ao longo de todo o período, perdendo a sua posição de “fiel da balança” executiva em 2025 devido à forte concorrência do Chega e à nova configuração à esquerda.

A mudança de parceiro executivo do Partido Socialista — abandonando a rota ao centro com o PSD para se aliar à CDU — redesenha profundamente as prioridades programáticas e a gestão diária do município.

Esta transição força o executivo liderado pelo PS a reconfigurar o seu foco, movendo o eixo das políticas públicas de uma visão mais liberal e virada para o investimento privado para uma agenda fortemente focada no pilar social e no planeamento público.

  1. Habitação Pública vs. Dinâmicas de Mercado
  • Com o PSD (2017–2024): A estratégia habitacional do PS baseava-se fortemente na captação de investimento imobiliário privado e em parcerias público-privadas para reabilitar o edificado urbano, mantendo uma abordagem moderada na regulação do mercado de arrendamento.
  • Com a CDU (Pós-2025): A habitação passa a ser tratada estritamente como um direito social básico. A influência programática da CDU exige o reforço direto do parque habitacional público municipal, o combate à gentrificação e ao alojamento local desregulado, e uma fiscalização mais apertada sobre os grandes projetos imobiliários privados do concelho.
  1. Gestão de Serviços Públicos e Infraestruturas
  • Com o PSD (2017–2024): O executivo anterior demonstrava abertura para a contratualização de serviços a empresas privadas e concessões exteriores, focando-se em critérios de eficiência financeira e orçamental na gestão da água, resíduos e manutenção de vias.
  • Com a CDU (Pós-2025): A CDU traz uma matriz ideológica de defesa intransigente dos serviços públicos universais e gratuitos. O impacto programático traduz-se na oposição a qualquer privatização, na exigência de internalização de serviços na esfera municipal (como a recolha de lixo) e no reforço do investimento nos SMAS (Serviços Municipalizados de Água e Saneamento) sob gestão puramente pública.
  1. Mobilidade e Transportes Urbanos
  • Com o PSD (2017–2024): O foco estava centrado em grandes infraestruturas, melhoria dos acessos rodoviários, parques de estacionamento e na transição gradual para frotas elétricas, equilibrando o uso do automóvel privado com o transporte público.
  • Com a CDU (Pós-2025): O programa é empurrado para o investimento massivo nos transportes coletivos, na gratuitidade ou redução drástica de passes sociais e no alargamento da rede municipal de transportes locais. O estacionamento tarifado e a expansão de zonas pagas enfrentam maior resistência programática por parte da CDU.
  1. Direitos Laborais e Gestão dos Trabalhadores Municipais
  • Com o PSD (2017–2024): A gestão dos recursos humanos da autarquia seguia as diretrizes gerais de controlo de custos com pessoal, recorrendo frequentemente a prestadores de serviços externos para colmatar falhas estruturais.
  • Com a CDU (Pós-2025): A valorização dos trabalhadores do município passa para a linha da frente. A CDU exige a vinculação de trabalhadores precários, a valorização das carreiras da administração local e o reforço dos meios técnicos próprios da autarquia, limitando o recurso a empresas de trabalho temporário ou outsourcing.

 

A decadência do Bloco de Esquerda em Almada

A descida da votação no BE em Almada sustenta-se em várias hipóteses: políticas, estruturais e de estratégica local, uma vez que o partido nunca conseguiu afirmar uma identidade própria por se “colar” demasiado à CDU e preocupar-se mais com questões nacionais do que municipais.

Um problema que já vem de longe, como é possível concluir do texto da autora publicado no Esquerda.Net em 03-07-2011 intitulado: “Um Bloco de Esquerda bem ou malcomportado? Dilema de uma esquerda não assumida!” já depois de renunciar aos cargos na Assembleia Municipal de Almada e na Assembleia de Freguesia de Cacilhas, e pouco antes de acabar por abandonar o partido nesse mesmo ano por divergências políticas com a concelhia de Almada, não voltando a ter qualquer filiação partidária desde então, mas mantendo-se sempre politicamente ativa.

Voltando ao presente. Nas eleições de outubro de 2025, o BE concorreu em coligação com o Livre (“Almada em Comum”), mas registou apenas 4,58% dos votos, falhando a eleição de um vereador, o que confirmou a tendência de queda iniciada em 2021.

E que razões poderão estar por detrás desta situação?

  1. Desgaste e Fadiga de Liderança Local
  • Fim da era Mortágua: O BE viveu o seu auge em Almada sob o forte perfil mediático de Joana Mortágua, que depois de em 2013 terem perdido o lugar na vereação conquistado em 2009 por Helena Oliveira, garantiu a vereação por dois mandatos consecutivos (2017 e 2021).
  • Dificuldade na transição: A transição para novas caras locais, como Sandra Cunha em 2025, não conseguiu reter o mesmo nível de notoriedade, resultando em perda de capital político direto no concelho.
  1. Efeito do Voto Útil e Polarização à Esquerda
  • Bipolarização PS vs. CDU: Almada transformou-se num campo de batalha muito renhido entre o Partido Socialista de Inês de Medeiros e a CDU.
  • Esmagamento das franjas: Em cenários de disputa voto a voto, o eleitorado progressista tendeu a concentrar o voto útil no PS (para evitar o regresso dos comunistas) ou na CDU (para derrubar os socialistas), esvaziando o espaço eleitoral do Bloco.
  1. Falha Estratégica na Aliança com o Livre
  • Resultados inconsequentes: A coligação “Almada em Comum” (BE-Livre) foi desenhada para agregar o voto ecologista e progressista, mas acabou por diluir as identidades de ambos os partidos sem gerar a dinâmica necessária para eleger um vereador.
  • Rutura pós-eleitoral: O divórcio imediato da coligação em novembro de 2025 expôs fragilidades e divergências programáticas profundas sobre o rumo da oposição em Almada.
  1. Fragmentação e Cisões Internas
  • Histórico de divisões: As dinâmicas internas do Bloco em Almada ficaram marcadas por fraturas passadas, como as referidas no segundo parágrafo deste capítulo.
  • Críticas à comissão política: Atritos face à estratégia nacional e municipal imposta pelas lideranças provocaram o afastamento de militantes ativos no terreno, enfraquecendo a capacidade de mobilização de rua do partido durante a campanha.
  1. Competição Direta e Crescimento da Direita
  • Dispersão do voto jovem/urbano: O eleitorado mais jovem e cosmopolita de Almada, outrora muito inclinado ao BE, passou a encontrar alternativas noutros quadrantes, com realce para o crescimento da Iniciativa Liberal e do PAN.
  • Ascensão do Chega: A forte penetração do Chega no concelho de Almada (alcançando 18,24% e dois vereadores em 2025) alterou completamente a geometria política local, empurrando o foco dos debates para temas onde o BE teve mais dificuldade em impor a sua agenda.

 

Resumo do Impacto Político

Ao contrário dos acordos anteriores com o PSD, que serviam essencialmente para garantir uma “paz orçamental” e a viabilização técnica de grandes projetos, a aliança com a CDU obriga o PS a uma revisão ideológica. O PS vê-se forçado a ceder na autonomia de mercado e a aceitar o caderno de encargos social da CDU para manter a governabilidade num concelho onde a direita somada (PSD e Chega) detém agora o mesmo número de vereadores que o bloco central original.

Autor: Ermelinda Toscano

Fundadora do projeto Memória Descritiva

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