
A análise dos dados revela transformações profundas no panorama político de Almada para a Assembleia Municipal entre 2001 e 2025.
O cenário evoluiu de um histórico domínio absoluto da esquerda (PCP/PEV) para um bipartidarismo competitivo (PS vs. PSD) e, mais recentemente, para uma forte fragmentação com a ascensão da direita populista (CH).
As principais conclusões e dinâmicas observadas:
O Declínio Histórico da CDU (PCP/PEV)
Em 2001, a coligação PCP/PEV liderava de forma isolada com 26.149 votos, mantendo-se estável até ao pico de 27.247 votos em 2009.
A partir de 2013, o partido iniciou uma trajetória descendente contínua, batendo o seu mínimo histórico em 2025 com apenas 15.183 votos (uma perda de quase 45% do eleitorado face a 2009).
A Ascensão e Consolidação do PS
O PS começou o século como a segunda força política (19.319 votos em 2001) e sofreu uma quebra até 2013 (15.345 votos).
Beneficiando da queda da CDU, o PS disparou em 2017 e atingiu o seu máximo em 2021 com 25.193 votos, consolidando-se como a maior força partidária em Almada, posição que manteve em 2025 apesar do recuo para 20.978 votos.
A Recuperação do PSD e a Reconfiguração da Direita
O PSD viveu uma perda crónica de votos, caindo de 12.378 (2001) até ao seu ponto mais baixo em 2013 (8.307) e 2021 (8.667).
No último sufrágio de 2025, o PSD registou uma recuperação expressiva ao alcançar 14.218 votos, voltando a aproximar-se dos seus valores históricos.
O Fenómeno Chega (CH)
Sem qualquer expressão até 2017, o Chega surge em 2021 com 4.320 votos e protagoniza o maior crescimento da tabela em 2025, saltando para os 14.775 votos. Com este resultado, ultrapassou ligeiramente o PSD e estabeleceu-se como a terceira força política mais votada na Assembleia Municipal de Almada.
A Iniciativa Liberal (IL) mostra um crescimento sólido e progressivo, subindo de 1.748 votos (2021) para 3.092 votos (2025).
O Bloco de Esquerda (BE) teve o seu apogeu em 2017 com 7.330 votos, mas tem vindo a perder espaço para outras forças, recuando para 4.588 votos em 2025.
O PAN estabilizou na casa dos mil a três mil votos (tendo 1.718 em 2025). Já o CDS desmoronou por completo ficando-se por uns residuais 617 votos em 2025.
Partido | Votos em 2001 | Votos em 2025 | Tendência Geral | |
PS | 19.319 | 20.978 | Crescimento e liderança atual. | |
PCP/PEV | 26.149 | 15.183 | Declínio acentuado. | |
CH | 0 | 14.775 | Crescimento explosivo (3.ª força). | |
PSD | 12.378 | 14.218 | Recuperação recente. | |
BE | 2.522 | 4.588 | Volatilidade com queda recente. | |
CDS | 2953 | 617 | Declínio acentuado. | |
IL | 0 | 3.092 | Crescimento sustentado. | |

A análise da distribuição de mandatos na Assembleia Municipal de Almada entre 2001 e 2025 traduz em mandatos a evolução da votação anterior, destacando a transição de maiorias absolutas estáveis à esquerda para um cenário de extrema fragmentação e perda de maiorias claras.
Pontos-chave desta evolução de mandatos:
O Fim da Maioria da CDU (PCP/PEV)
Entre 2001 e 2013, a CDU manteve uma liderança inabalável com 14 “deputados” municipais, o que lhe garantia uma base de governação muito forte no concelho.
A perda de mandatos começou em 2017 (caindo para 11) e culminou num retrocesso histórico em 2025, ano em que elegeu apenas 7 “deputados”, metade do que detinha no início do século.
A Evolução Pendular do PS
O PS manteve-se estável na casa dos 9 a 10 “deputados” na primeira década. Beneficiando da queda da CDU, subiu para 11 em 2017 e atingiu o seu pico em 2021 com 13 “deputados”, tornando-se a maior força na assembleia.
Acompanhando a quebra na votação, o PS regressou em 2025 aos 10 deputados, o mesmo número que elegia em 2001.
O Fenómeno e o Impacto do Chega (CH)
O Chega entrou na assembleia em 2021 com 2 “deputados” e, em 2025, registou um crescimento massivo ao eleger 7 “deputados” municipais.
Com este resultado, o Chega igualou diretamente a bancada da CDU (PCP/PEV) com 7 assentos, tornando-se uma força fulcral no xadrez político local.
PSD e a fragmentação dos pequenos partidos
O partido viveu um declínio contínuo de mandatos, batendo no fundo em 2021 com apenas 4 “deputados”, mas em 2025 conseguiu recuperar e subir para os 6 “deputados”, aproximando-se da sua representação histórica de 2005.
Teve o seu melhor momento em 2017 com 4 “deputados”, mas reduziu a sua bancada para 2 “deputados” em 2025.
A IL conseguiu a sua primeira eleição para a Assembleia Municipal em 2025, garantindo 1 “deputado”.
O PAN perdeu o único deputado que mantinha desde 2013. O CDS confirma o desaparecimento deste órgão, não elegendo ninguém desde 2017.
Comparativo da Composição da Assembleia (2001 vs 2025)
Partido | “Deputados” em 2001 | “Deputados” em 2025 | Mudança no Peso Político |
PCP / PEV | 14 | 7 | Perda de hegemonia (-7). |
PS | 10 | 10 | Regresso à base inicial após pico em 2021. |
CH | 0 | 7 | Entrada fulgurante como 3.ª maior bancada. |
PSD | 7 | 6 | Recuperação face aos piores anos. |
BE | 1 | 2 | Crescimento face a 2001, mas em queda face a 2017. |
IL | 0 | 1 | Estreia no órgão municipal. |
CDS | 1 | 0 | Perda total de representação. |
Em suma, a Assembleia Municipal de Almada passou de um órgão dominado pela CDU em 2001 para um cenário altamente fragmentado em 2025, onde PS, PCP/PEV, Chega e PSD dividem as grandes fatias dos mandatos, obrigando a uma maior necessidade de consensos e negociações à direita e à esquerda.
O cruzamento entre a evolução da abstenção e os resultados práticos na Câmara Municipal de Almada ajuda a explicar a transição de um “Bastião Comunista” para um modelo governativo fragmentado e dependente de equilíbrios difíceis à direita e à esquerda.
O Impacto da Abstenção na Mobilização Eleitoral
Historicamente, as eleições autárquicas em Almada têm sido marcadas por flutuações na abstenção que ditaram o sucesso ou a queda dos partidos tradicionais:
2001 a 2013 (A estabilidade com abstenção alta): A CDU manteve as suas maiorias absolutas na Câmara com taxas de abstenção elevadas (frequentemente fixadas entre os 50% e os 55%). O eleitorado comunista mantinha-se altamente fiel e disciplinado, o que permitia ao partido vencer confortavelmente enquanto a oposição permanecia desmobilizada.
2017 (A reviravolta): O PS consegue conquistar a liderança da Câmara pela primeira vez com Inês de Medeiros. Este momento deveu-se a um misto de desgaste local da CDU com um ligeiro aumento da mobilização em franjas do eleitorado urbano e de classe média, que viu no PS uma alternativa viável de poder.
2021 a 2025 (Fragmentação e o “Voto de Protesto”): Nas eleições de 12 de outubro de 2025, a taxa de abstenção fixou-se nos 49,03% (74.209 abstencionistas para 77.133 votantes). Embora ligeiramente inferior aos piores anos, este nível permitiu que uma parte do eleitorado descontente ou anteriormente abstencionista se mobilizasse em torno de forças populistas como o Chega. O crescimento explosivo da direita radical não foi apenas uma transferência direta de votos do PSD; alimentou-se de cidadãos que habitualmente não votavam nas eleições locais.
Impacto Direto na Governação da Câmara Municipal
A distribuição de mandatos no órgão executivo (a Câmara Municipal, composta por 11 vereadores no total) em 2025 reflete a mesma perda de maiorias verificada na Assembleia Municipal:
PS – 4 vereadores (29,10% — Inês de Medeiros reeleita para o 3.º mandato, mas sem maioria);
CDU – 3 vereadores (20,61%);
PSD – 2 vereadores (19,36%);
Chega – 2 vereadores (18,24%).
Os Desafios Práticos de Governação (2025–2029)
O PS venceu as eleições, mas com apenas 4 dos 11 vereadores necessários para governar. Isto levou Inês de Medeiros a negociar com a oposição um acordo pós-eleitoral, caso contrário não conseguiria aprovar nenhuma medida de forma isolada, fosse o Orçamento Municipal ou os planos de investimento.
Apesar da histórica fricção política local entre socialistas e comunistas em Almada, foi possível estabelecer um acordo pós-eleitoral formando uma “frente de esquerda” (PS + CDU) e somar 7 vereadores (maioria absoluta).
O acordo pós-eleitoral formalizado entre o PS e a CDU mudou drasticamente a dinâmica política de Almada para o mandato de 2025–2029. Ao integrar três vereadores comunistas no executivo e entregar a gestão de pelouros chave — como a higiene urbana e a presidência dos SMAS a Luís Palma (CDU) —, o PS garantiu a viabilidade de governação na Câmara Municipal.
Contudo, a transposição deste acordo para o órgão deliberativo — a Assembleia Municipal — gera impactos profundos e complexos devido à fragmentação de mandatos.
Estabilização da Maioria de Esquerda (O “Bloco de Governação”)
O primeiro impacto direto é a criação de uma maioria confortável para aprovar as propostas estruturais vindas da Câmara (como Orçamentos Municipais e Grandes Opções do Plano).
- Juntos, PS (10 deputados) e CDU (7 deputados) somam 17 assentos diretos na Assembleia Municipal.
- Como a Assembleia também inclui por inerência os presidentes das Juntas de Freguesia (onde a CDU e o PS mantêm forte implantação local), este bloco ganha uma almofada política robusta, esvaziando a capacidade de bloqueio total por parte da oposição direta (PSD e Chega).
Blindagem face ao Crescimento da Direita (CH e PSD)
Com o Chega a assumir-se como a terceira força política na Assembleia com 7 “deputados”, emparelhado com o PSD (6 deputados), o acordo PS/CDU funcionou como um mecanismo de contenção. Sem este entendimento, o PS ficaria refém de negociações pontuais à direita. A aliança à esquerda neutraliza a capacidade de o Chega ditar a agenda municipal ou chumbar propostas em sede de Assembleia, relegando a oposição de direita a um papel fiscalizador, mas com menor poder de veto prático.
O “Calcanhar de Aquiles”: Os SMAS como Alvo da Oposição
A entrega da presidência dos SMAS à CDU — um órgão historicamente associado à gestão comunista em Almada e que enfrentou sérios desafios de infraestrutura e picos de consumo de água — desloca o foco da crítica política na Assembleia Municipal:
- Frentes de Ataque Unificadas: Partidos como o Bloco de Esquerda e o PSD ganham espaço na Assembleia para fustigar tanto a CDU (pela gestão direta) como o PS (por ter delegado essa competência). O debate na Assembleia foca-se intensamente na prestação de contas dos serviços municipalizados.
- Auditorias Obrigatórias: Como parte do acordo, foi exigida uma auditoria externa e independente à Câmara, à WeMob e aos SMAS. Os resultados destas auditorias serão os grandes instrumentos de debate e confronto político dentro da Assembleia Municipal ao longo do mandato, servindo de munição para a oposição fiscalizar as contas públicas.
Constrangimentos à Identidade dos Partidos
Embora traga estabilidade, o acordo cria fricção interna que se manifesta nos debates da Assembleia:
- Os deputados municipais da CDU veem-se na posição ambígua de ter de defender na Assembleia políticas gerais delineadas pela socialista Inês de Medeiros, diluindo o seu papel de oposição combativa.
- O PS, por sua vez, precisa de gerir as exigências programáticas da bancada comunista, sabendo que qualquer rutura na Assembleia colocará em risco a paz social e executiva conquistada na Câmara Municipal.
Resumo do Cenário na Assembleia
A fragmentação foi contida por uma geometria de sobrevivência política. A Assembleia Municipal de Almada deixou de ser um palco de paralisia institucional para se tornar um espaço de maioria de esquerda estável no papel, mas sob permanente vigilância e forte crispação vinda das bancadas do Chega, PSD e BE, com especial foco na gestão quotidiana da cidade e nos serviços essenciais (SMAS).
2 Responses
Muito bem. Bom trabalho.
Muito obrigada pelas suas palavras.