Cumprir objetivos e superar metas no SIADAP 3 tornou-se um exercício de burocracia vazia para milhares de técnicos superiores na Administração Pública em Portugal. O sentimento é partilhado de forma transversal: meses de dedicação a produzir estudos aprofundados, manuais de boas práticas e relatórios estratégicos culminam na atribuição de uma nota de “Relevante” ou “Excelente”, mas o impacto real desse trabalho é nulo. A inovação morre quando o documento é arquivado numa gaveta digital ou física.
Este fenómeno gera um ciclo de desmotivação que mina o potencial de modernização do Estado.
O Paradoxo do Desempenho vs. Impacto
A tabela abaixo contrasta a realidade da avaliação com a frustração da prática diária:
A Expectativa do SIADAP 3 | A Realidade Institucional |
| Superar Objetivos: Entregar relatórios complexos e propostas de melhoria estruturadas. | Arquivamento Sistémico: Os documentos servem para validar a nota, não para mudar processos. |
| Foco na Inovação: Desenhar manuais que otimizem o serviço público e poupem recursos. | Resistência à Mudança: A liderança prefere manter o “sempre se fez assim” por aversão ao risco. |
| Valorização Profissional: Ver o mérito reconhecido através da utilidade do trabalho. | Progressão Bloqueada: Quotas rígidas e falta de aplicação prática geram cinismo e apatia. |
As Causas da “Cultura da Gaveta”
O problema não reside na competência dos/as trabalhadores/as, mas sim em falhas estruturais do modelo de gestão pública:
- Gestão por Conformidade, Não por Resultados: O sistema avalia se o relatório foi feito, mas ninguém avalia se o relatório foi lido, implementado ou gerou valor.
- Desconexão da Liderança: Muitas chefias utilizam os objetivos do SIADAP apenas como um indicador de desempenho para cumprimento de metas do próprio serviço, sem qualquer visão estratégica para aplicar o conhecimento produzido.
- Falta de Circuitos de Partilha: O conhecimento fica estanque dentro de cada direção ou departamento. Não existem repositórios transversais eficazes onde um manual útil possa ser reaproveitado por outro ministério.
Como Quebrar o Ciclo?
Para que o SIADAP 3 deixe de ser uma mera “caça aos pontos” e passe a ser um motor de mudança, a Administração Pública precisa de transitar para uma cultura de impacto respeitando três regras básicas:
- Os objetivos individuais devem incluir não apenas a “elaboração” de um estudo, mas também a sua “fase de teste” ou “implementação”.
- Criar plataformas digitais interdepartamentais (e até interministeriais) onde todos os manuais e estudos classificados com mérito sejam públicos e pesquisáveis.
- Avaliar os dirigentes pela capacidade de aplicar as inovações propostas pelas suas equipas.
Avaliar o desempenho sem dar utilidade ao fruto desse trabalho é um desperdício crónico de talento e de dinheiros públicos. Enquanto o mérito no SIADAP 3 for sinónimo de papelada esquecida, a Administração Pública continuará a perder os seus melhores quadros para a desmotivação ou para o setor privado. É urgente transformar o mérito burocrático em impacto real.