Liderança de Proximidade: O Antídoto para o Absentismo e o Motor do Talento Público

 

A Administração Pública em Portugal vive um momento de viragem histórica. Longe vão os tempos em que o Estado era visto apenas como uma máquina burocrática, rígida e avessa à mudança. Hoje, no reflexo de um mundo em transição digital e demográfica, o maior desafio do setor público não reside na modernização dos seus sistemas operacionais, mas sim na reinvenção da sua cultura de liderança. Perante os níveis persistentes de absentismo e o desafio crónico da retenção de talento, urge consolidar um novo perfil de liderança: a liderança empática, ágil e focada nas pessoas.

O absentismo no setor público é, frequentemente, a face visível de um problema mais profundo. Embora existam causas legítimas de doença e envelhecimento da força de trabalho, uma fatia significativa do absentismo decorre do desgaste psicológico, do burnout e da desmotivação crónica. Quando as lideranças gerem por decreto, assentes no mero controlo de assiduidade e na hierarquia cega, o/a trabalhador/a afasta-se emocionalmente da sua missão. O combate eficaz ao absentismo não se faz, portanto, com mais fiscalização punitiva, mas sim com a promoção do bem-estar e da saúde organizacional.

É aqui que entra o/a novo/a líder. A liderança do século XXI na Administração Pública tem de ser facilitadora. Deve saber ler os sinais de exaustão das equipas, promover a flexibilidade — potenciando modelos híbridos de trabalho onde estes gerem produtividade — e substituir a cultura do “presenteísmo” pela cultura dos resultados e do propósito. Quando um/a trabalhador/a compreende o impacto direto do seu esforço na vida dos cidadãos / cidadãs e se sente apoiado/a pela sua chefia, o absentismo recua organicamente.

Em simultâneo, a atração e retenção de talento emergem como a grande batalha demográfica do Estado. Com um mercado privado altamente competitivo e dinâmico, a Administração Pública corre o risco de perder os seus melhores quadros e falhar na captação de jovens licenciados/as se continuar a oferecer apenas a promessa de estabilidade. O talento jovem procura autonomia, progressão meritocrática, formação contínua e, acima de tudo, alinhamento de valores.

Promover o talento no setor público exige que os novos líderes abandonem o favoritismo ou a inércia dos automatismos da antiguidade. É imperativo criar espaços de inovação, onde o erro controlado seja permitido como ferramenta de aprendizagem e onde o mérito seja visível e premiado. Mapear competências, desenhar planos de carreira dinâmicos e apostar no reskilling (requalificação) são tarefas urgentes que cabem a quem lidera.

Em suma, combater o absentismo e reter talento são duas faces da mesma moeda: a valorização do capital humano. Portugal precisa de dirigentes públicos que inspirem em vez de apenas chefiar. A modernização do Estado não se fará apenas com algoritmos ou portais digitais; far-se-á com líderes capazes de humanizar o serviço público, devolvendo aos trabalhadores/as o orgulho na camisola do bem comum. O futuro da nossa governação depende, inteiramente, da coragem de mudar esta cultura hoje.

Autor: Ermelinda Toscano

Fundadora do projeto Memória Descritiva

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