A modernização da Administração Pública tem avançado a passos largos na digitalização e simplificação de processos voltados para o público. Contudo, a eficiência externa depende, inevitavelmente, da coesão interna.
Apesar de iniciativas governamentais focadas na inovação e na partilha de conhecimento (como o Plano Colaborativo da Administração Pública), a promoção da colaboração horizontal — entre colegas e diferentes departamentos — enfrenta barreiras profundas. Romper as barreiras tradicionais para construir uma cultura de cooperação continua a ser um dos maiores desafios organizacionais do Estado.
Na nossa opinião, são quatro os principais entraves à colaboração interna:
- A Cultura de Silos e a Herança Burocrática
A Administração Pública ainda carrega uma forte herança de orgânica Weberiana, caracterizada por uma hierarquia rígida e verticalizada.
- Fragmentação: Os ministérios, direções-gerais e institutos tendem a funcionar como “quintas” ou silos isolados.
- Falta de Transparência: A informação é muitas vezes tratada como um ativo de poder individual ou setorial, e não como um bem público institucional.
- Rigidez Formal: Privilegia-se o cumprimento estrito do formalismo legal em detrimento da agilidade cooperativa, gerando resistência quando se propõem dinâmicas de trabalho transversais.
- Deficiências Estratégicas na Comunicação Interna
A comunicação interna na Administração Pública é, na sua maioria, descendente (da chefia para os/as trabalhadores/as) e informativa, raramente assumindo um caráter simétrico e bidirecional.
- Canais Obsoletos: Falta de plataformas centralizadas e intuitivas que permitam a partilha rápida de boas práticas e conhecimento entre equipas.
- Desconexão: Os/as trabalhadores/as muitas vezes desconhecem os projetos desenvolvidos pelo departamento vizinho, o que resulta na duplicação desnecessária de tarefas e no desperdício de recursos públicos.
- Modelos de Liderança e Avaliação Centralizados
A transição para um modelo de governação partilhada exige lideranças abertas ao diálogo e à cocriação, o que choca com a realidade de muitas chefias habituadas ao comando e controlo.
- Falta de Incentivos no SIADAP: O Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública (SIADAP) foca-se, quase em exclusivo, em metas individuais ou da unidade orgânica. Não existem métricas robustas ou recompensas estruturadas que valorizem o esforço colaborativo interdepartamental.
- Inércia de Gestão: Sem incentivo ou penalização clara, os dirigentes tendem a focar-se apenas no cumprimento estrito das metas exclusivas do seu próprio serviço.
- Barreiras Tecnológicas e Procedimentais
Apesar do avanço de soluções digitais, a interoperabilidade tecnológica entre diferentes organismos ainda é deficitária.
- Sistemas Incompatíveis: Diferentes departamentos utilizam plataformas de gestão documental e fluxos de trabalho incompatíveis entre si.
- Assimetria Documental: A ausência de uma verdadeira “plataforma unificada” dificulta a tramitação rápida de processos complexos que envolvem a fusão ou articulação de vários serviços.
Estratégias de Superação: O Caminho para a Mudança
Para mitigar estes bloqueios, a Administração Pública precisa de se focar em reformas transversais de cultura e processos:
Dimensão | Medida Recomendada | Objetivo |
Cultura Organizacional | Criar comunidades de prática interdepartamentais promovidas pelo Instituto Nacional de Administração (INA). | Quebrar o isolamento dos silos e valorizar o conhecimento coletivo. |
Sistemas de Avaliação | Rever o SIADAP para incluir objetivos partilhados entre unidades orgânicas. | Incentivar formalmente a cooperação horizontal. |
Tecnologia | Expandir a lógica do “Balcão Único” para a retaguarda dos serviços públicos. | Unificar procedimentos e garantir que os sistemas comunicam entre si. |
Comunicação | Profissionalizar os canais de escuta ativa e diálogo organizacional. | Aumentar o engagement e a confiança dos funcionários. |
A promoção da colaboração na Administração Pública ultrapassa a mera vertente técnica; trata-se de um desafio predominantemente cultural e humano. Enquanto a cooperação for vista como uma tarefa secundária e não como o pilar central da prestação do serviço público, as medidas de inovação terão um alcance limitado. O sucesso da modernização administrativa reside na capacidade de transformar funcionários isolados em redes ativas de servidores públicos focados num objetivo comum.